A única razão de eu votar no Flávio ao invés do Lula é a minha preocupação com o aparelhamento das instituições. Pra mim o Flávio é um bandido. Mas eu não consigo ver o Brasil funcionando com mais 4 indicações do Lula pro Supremo. O PT aparelhou o estado de uma forma que eu nunca vi antes e eu prefiro ter 4 pilantras desalinhados com o STF atual do que 4 pilantras alinhados.

Tenho amigos que se empolgam com o partido Missão, com o MBL e com as falas de Renan Santos. Admiram Milei e Bukele, desconfiam do Supremo e não esperam nada "do sistema". Não são poucos: o candidato chegou a pontuar 37,9% de intenção de voto entre jovens. A mensagem acima, que recebi de um deles, resume bem o dilema desse eleitor no segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro.

Este texto não pede que você goste do PT. Pede que você leve a sério a sua própria preocupação. Se o problema é um Supremo aparelhado, a pergunta certa é: qual dos dois candidatos tem mais chance de entregar um?

Zanin, Dino e Moraes

Começo concedendo que as nomeações de Lula para o Supremo foram, de fato, de pessoas próximas ao governo. Mas vale olhar caso a caso.

Zanin. Num país de mais de 200 milhões de pessoas, nomear para o Supremo o próprio advogado pessoal, por mais competente que seja, não é republicano. Ponto. Dito isso, o ministro tem dado sinais de independência. Votou contra a descriminalização do porte de maconha, contrariando boa parte da base que o celebrou. E, segundo mensagens extraídas pela PF do celular de Vorcaro, recusou o convite para a degustação de uísque que o banqueiro patrocinou em Londres em 2024.

Dino. A trajetória política dele incomoda opositores: saiu do Ministério da Justiça direto para o Supremo, aprovado por apenas 47 votos a 31. Mas antes da política foi juiz federal por doze anos. E vota, sim, com o governo na maioria das pautas caras a ele. Só que também foi ele quem obrigou o Congresso a dar transparência às chamadas emendas Pix, dinheiro parlamentar que caía nas contas de prefeituras sem rastreio nem prestação de contas. E foi ele quem mandou revisar e suspender penduricalhos sem previsão em lei, as verbas que fazem juízes ganharem acima do teto. Nenhum ministro mexeu tanto nos privilégios do próprio Judiciário e do Legislativo.

Moraes. Não foi nomeado por Lula e é talvez o nome que mais irrita o eleitor de Renan. Mas tratar Moraes como "ministro do PT" ignora a história. Ele foi ministro da Justiça de Temer, filiado ao PSDB, e o PT votou em bloco contra sua indicação em 2017. A então líder do partido no Senado, Gleisi Hoffmann, chegou a dizer que temia uma atuação partidária dele no tribunal. No ano seguinte, Moraes votou para negar o habeas corpus que manteria Lula fora da prisão. O que une Lula e Moraes hoje é sobrevivência, não ideologia: os dois estiveram na mira do mesmo golpe. Há gratidão pelo papel dele no inquérito do 8 de janeiro, mas não passa disso. E se as mensagens de Vorcaro a Moraes que a PF encontrou justificarem uma investigação, que ele seja investigado como qualquer outro, como Lula mesmo defendeu.

É importante e parte do processo democrático questionar essas relações, mas vale dizer que não é algo inédito. Collor nomeou o próprio primo, Marco Aurélio Mello. Temer mandou para o Supremo o seu ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, que como secretário de Segurança de São Paulo havia cuidado do caso do hacker que chantageou a primeira-dama Marcela Temer. Bolsonaro indicou André Mendonça, seu advogado-geral da União e ministro da Justiça, escolhido por ser "terrivelmente evangélico". A falta de republicanismo nas indicações ao Supremo é histórica, e Lula, depois de dois mandatos com nomes como Joaquim Barbosa e Cármen Lúcia, infelizmente capitulou a ela, num momento de instabilidade institucional, com o país saindo de uma tentativa de golpe. Mas nenhum desses casos se parece com o que está do outro lado da urna.

O que a história mostra: indicados que julgaram quem os indicou

Os ministros indicados por Lula e Dilma passaram a última década impondo derrotas ao PT. Nesses três mandatos, o presidente já nomeou 10 ministros ao STF; Dilma mais 5. Foram essas indicações que investigaram e condenaram membros da alta cúpula petista no mensalão e Lava Jato, que negaram habeas corpus de Lula, garantiram a condução do impeachment de Dilma, impediram que Lula fosse no velório de seu irmão a tempo quando estava preso e deram outras diversas derrotas aos governos petistas nesses anos. Isso não absolve ninguém, mas desmonta a ideia de que um ministro indicado pelo PT vira automaticamente um soldado do PT.

O legítimo medo de aparelhamento atribui quase que exclusivamente a Lula uma característica endêmica do Brasil: o patrimonialismo, a linha turva entre o público e o privado, tão vulgarmente representada pelo caso Master, é que é marca na nossa história. É representada nos clássicos da literatura, de Brás Cubas às Memórias de um Sargento de Milícias, no teatro com O Bem Amado, no cinema, na música, no nosso cotidiano. A corrupção não é uma novidade introduzida pela democracia (ou pelo petismo!), são a regra do jogo há 400 anos. O que é inédito é que seja investigada.

viés de sobrevivência: conta a anedota que um avião que volta de uma batalha cravejado por balas leva a crer que são as partes cravejadas que devem ser reforçadas, mas é o contrário: são os aviões que não voltaram, isto é o dado que não vemos, que determinam onde deve haver reforço

A política brasileira se tornou um exemplo excelente do viés de sobrevivência: durante os governos petistas, escândalos de corrupção aparecem com mais frequência no noticiário - logo, trata-se de um governo mais corrupto, certo? Ou trata-se de um governo que permitiu que as investigações de corrupção corressem livres? Os números ajudam a responder. A Polícia Federal fez 18 operações especiais em 2003 e 512 em 2015. Foram governos petistas que sancionaram a Lei da Transparência (2009), a Lei de Acesso à Informação (2011), a Lei Anticorrupção e a lei que regulamentou a delação premiada (ambas de 2013), sem a qual a Lava Jato não teria existido. E de 2003 a 2016, todos os procuradores-gerais da República saíram da lista tríplice votada pelos próprios procuradores. Paulo Gonet não saiu, mas tampouco é um aliado histórico do governo e chegou a ser considerado pelo próprio Bolsonaro.

Que fique claro: isso não isenta os petistas envolvidos em casos de corrupção, apesar do partido receber crédito desproporcional: a própria Lava Jato investigou mais políticos do partido do então deputado Jair Bolsonaro, o PP, e do MDB, do que do PT. Novamente, é um problema endêmico do Brasil, que atravessa séculos e partidos, mas só em um momento da história pôde ser investigado, doa a quem doer. Ou vocês acreditam em Jair Bolsonaro quando disse ter acabado com a Lava Jato "porque não tem mais corrupção no governo"?

O freio que já funcionou: o Senado

O presidente indica, mas quem nomeia é o Senado. E o Senado já mostrou que não assina em branco. Em abril deste ano, rejeitou Jorge Messias, indicado de Lula, por 42 votos a 34. Foi a primeira rejeição de um nome ao Supremo desde 1894. E a articulação contra Messias foi liderada justamente pelo senador Flávio Bolsonaro.

O próximo Senado tende a ser ainda mais duro com um governo petista. As projeções colocam o PL como maior bancada, com pelo menos 20 senadores, e um bloco de direita perto de 43 das 81 cadeiras. Para aprovar um ministro, são necessários 41 votos.

O valor da democracia está exatamente aqui. Um presidente progressista diante de um Senado conservador é obrigado a negociar nomes que passem pelos dois lados. Hoje, um nome visto como próximo demais do Planalto corre o risco real de ser barrado: Messias, advogado-geral da União de Lula, é a prova.

Agora inverta o cenário. Com Flávio na Presidência, o mesmo Senado vira aliado. O freio que barrou Messias deixa de existir. Os quatro pilantras "desalinhados" que a mensagem lá do começo imagina seriam, na verdade, alinhados com o presidente, aprovados sem resistência por uma base que é dele. Se o seu medo é um Supremo aparelhado, o cenário mais perigoso é o de um presidente sem contrapeso nenhum.

Os pilantras alinhados: o Master e quem Flávio indicaria

O escândalo do Banco Master atravessa o Supremo inteiro. As mensagens do celular de Vorcaro respingam em ministros indicados por Temer, Lula, Dilma e Bolsonaro. Mas compare os indicados recentes de cada lado.

Bolsonaro indicou dois ministros. Os dois aparecem nas mensagens. Sobre Kassio Nunes Marques, diálogos entre Vorcaro e o diretor jurídico do Master mencionam pagamentos mensais de R$ 500 mil ao filho do ministro, e assessores do banqueiro se referiam a pessoas próximas a ele como "turma do KN". Já Mendonça admitiu ao Estadão que recebeu Vorcaro em março de 2025 na sede do Instituto Iter, entidade que ele mesmo fundou e que recebeu R$ 5,2 milhões da Cedro Participações, holding de Lucas Kallas, sócio de Vorcaro. Os outros ministros do STF que têm garantido vitórias ao clã, Fux e Toffoli, também estão envolvidos com o caso Master. Os dois indicados de Lula no terceiro mandato? Zanin recusou o convite de Vorcaro. Dino, até aqui, não aparece.

E de onde Flávio tiraria os seus? Do próprio círculo. Segundo a PF, ele pediu R$ 131 milhões a Vorcaro para o filme Dark Horse, sobre a vida do pai, e cerca de R$ 60 milhões teriam sido pagos. Na véspera da operação que prendeu o banqueiro, Flávio lhe escreveu: "Irmão, estou e estarei contigo sempre". O dinheiro, segundo as reportagens, foi parar num fundo ligado ao advogado de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.

Há ainda Willer Tomaz, advogado que o próprio Flávio chama de amigo. Os dois viajaram juntos para um safári na África do Sul e num jatinho que dividia com Vorcaro. Na pré-campanha, Flávio usou um apartamento de Tomaz em São Paulo que havia sido comprado do cunhado e operador financeiro de Vorcaro. Tomaz é investigado no esquema de fraudes do INSS, e a PF apura se ele usou apostas online para lavar dinheiro.

Não posso deixar de mencionar que depois que Vorcaro deixou a prisão para a domiciliar, Flávio o visitou na mansão do banqueiro em São Paulo, o que ele próprio admitiu. E circula uma foto de Flávio sem camisa ao lado de Luiz Phillipi Mourão, o "Sicário", apontado pela PF como integrante do "núcleo de intimidação" de Vorcaro.

Flávio com o Sicário de Vorcaro

O caso Master é o maior escândalo do Judiciário em décadas. A única chance de ser julgado direito, e já não é grande, é que o próximo presidente não seja o amigo do banqueiro. Esperar que Flávio indique ministros dispostos a investigar o homem que ele chamou de irmão é irreal.

Os corvos

Diz o ditado espanhol: cría cuervos y te sacarán los ojos. Na quinta-feira, 1º de outubro, Flávio desistiu do debate da Globo minutos depois de o STF garantir a presença de Renan Santos. Oficialmente, culpou uma decisão do TSE. Lula também não foi, e merece a crítica. Mas a pergunta para o eleitor do Missão é outra: se Flávio evita Renan hoje, como vai tratá-lo amanhã, com a caneta na mão?

A história responde. Carlos Lacerda apoiou o golpe de 1964 e teve os direitos políticos cassados pelo regime que ajudou a instalar. Nos Estados Unidos, basta ver como Trump trata quem é do seu campo e não jura fidelidade: John Bolton teve a casa vasculhada pelo FBI, Marjorie Taylor Greene foi chamada de traidora e perdeu o apoio do presidente. Autoritários costumam silenciar os dissidentes do próprio lado antes de ir atrás da oposição. Do esquerdista se espera crítica; do direitista, obediência.

E o recado já foi dado. Eduardo Bolsonaro, que tem dito a interlocutores que quer comandar o Itamaraty num governo do irmão, gravou um vídeo nesta semana prometendo uma "faxina" no ministério e avisando aos diplomatas que, segundo ele, sabotaram o pai: "preocupe-se de verdade, porque eu vou estar na sua cola". Se é assim com servidores de carreira, imagine com os direitistas que se recusaram a beijar a mão.

Flávio é candidato, nas palavras dele, "para honrar meu pai e dar continuidade ao seu legado". O pai está condenado a 27 anos de prisão por tentar um golpe de Estado, e a anistia é a pauta número um da família. Se a caixa de Pandora se abrir, não vai sobrar só para a esquerda. Vai sobrar, primeiro, para quem traiu.

Soberania: o legado que Flávio promete continuar

Renan Santos e o Missão fizeram da soberania nacional uma bandeira. Pois bem. O governo Bolsonaro tentou liquidar a Ceitec, única fábrica de chips do país, e viu a Avibras, fabricante de mísseis e foguetes, entrar em recuperação judicial. Eduardo Bolsonaro passou 2025 nos Estados Unidos fazendo campanha por sanções e pelo tarifaço contra o Brasil para pressionar pela soltura do pai. E conseguiu: Trump tarifou o Brasil. Mas para Trump a política externa é um balcão de negócios, e nada sai de graça. Fica a dúvida: o que foi prometido em troca? Uma pista: em março, na CPAC, Flávio disse que o Brasil é "a solução" para os Estados Unidos deixarem de depender da China em terras raras.

Foi o próprio Renan quem trouxe à tona a Rockbridge, rede de financiadores trumpistas fundada por JD Vance. Ele acusa o grupo de ter entrado na campanha de Flávio por meio dos empresários Tallis Gomes e Pedro Sang, que, segundo o jornalista Guilherme Amado, despacha de uma sala no QG da campanha e se apresenta como "Pedro da Rockbridge". Financiamento estrangeiro de campanha é proibido no Brasil. E adivinhe qual é um dos principais interesses da Rockbridge: infraestrutura para inteligência artificial, incluindo terras raras.

Flávio, a milícia e o crime organizado: não são aliados, são amigos

Enquanto estava preso por torturar e assassinar um flanelinha que denunciou um esquema de extorsão da PM, Adriano da Nóbrega foi surpreendido em sua cela por Flávio e seu pai, que foram para a prisão para entregar a medalha Tiradentes, a maior honraria do legislativo fluminense, concedida por Flávio. Anos depois, o então deputado estadual passa a empregar a mãe e a esposa do miliciano em seu gabinete, enquanto ele operava o Escritório do Crime.

Depois de 2018, esse mesmo Escritório do Crime ganhou repercussão nacional por estar por trás do assassinato de Marielle Franco. A execução, realizada por Ronnie Lessa, vizinho de condomínio de Bolsonaro, foi feita a mando de Chiquinho Brazão, que ao lado de Flávio em um trio elétrico fez campanha para Jair em 2022. O responsável por garantir o armamento usado na execução, Robson Calixto, por sua vez intermediou uma emenda de R$200.000 do já então senador Flávio, para um "projeto social".

O palanque de 2026

Tudo isso poderia ser coisa do passado. Não é. Olhe para quem Flávio escolheu para dividir o palanque no Rio este ano:

Perceba o padrão. Milícia, matadores de aluguel, lavagem de dinheiro do crime, vazamento para o Comando Vermelho. E em todos os casos, o elo não é uma foto de campanha: é amizade, emprego, emenda, medalha, lugar na chapa. A trajetória de Flávio no Rio de Janeiro é a de braço político da milícia.

Bukele não, Flávio é Juan Orlando Hernández

Flávio e seus apoiadores vendem a ideia de um Bukele brasileiro, o linha-dura que vai acabar com as facções. O paralelo mais honesto é outro: Juan Orlando Hernández, ex-presidente de Honduras. Ele também posava de inimigo do narcotráfico. Segundo a Justiça americana, enquanto isso ajudava a levar mais de 400 toneladas de cocaína para os Estados Unidos, protegendo traficantes em troca de propina. Foi condenado a 45 anos de prisão em 2024.

E aqui o paralelo fica ainda mais incômodo: em dezembro de 2025, Trump perdoou Hernández, às vésperas de uma eleição em que apoiava abertamente o candidato do partido dele. O mesmo Trump que manda bombardear barcos de "narcoterroristas" no Caribe solta um narcotraficante condenado quando ele é útil. É esse o padrinho de Flávio.

Levar Flávio à Presidência é transformar a segurança pública do Brasil na segurança pública do Rio de Janeiro. É institucionalizar o crime organizado. E se Trump estiver falando sério sobre tratar facções como alvo militar, o Brasil estará numa posição bastante perigosa, com um presidente que deve favores dos dois lados.

O preço do seu ódio ao PT

Volto à mensagem do começo. Você prefere quatro pilantras desalinhados a quatro pilantras alinhados. Faz sentido. Mas a escolha real no segundo turno é outra.

De um lado, um presidente de quem você discorda profundamente, no programa econômico e na condução do governo, mas cujos indicados passaram anos julgando o próprio partido e que vai enfrentar um Senado disposto a barrar os nomes dele. Do outro, um candidato que pediu dinheiro ao dono do Master, chama o banqueiro de irmão, teria um Senado aliado para aprovar quem quisesse e se candidata para "honrar" um pai condenado por tentar um golpe.

O primeiro cenário tem freios. O segundo, não.

Você não precisa gostar do Lula para votar nele no segundo turno. Precisa só levar a sério a preocupação que você mesmo levantou.

Este texto nasceu de uma conversa provocada por O Que Esses Brasileiros Sabem, de João Moreira Salles, na piauí.